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O seu marido age como se fosse seu pai?

Então pode ter certeza: você se comporta como a filhinha. Leia opiniões de especialistas O seu marido age como se fosse seu pai? Então pode ter certeza: você se comporta como a filhinha. Relacionamentos no qual o homem controla os passos da mulher e dita regras de comportamento ainda existem hoje. E não adianta querer […]

Publicado por: Cida Ramos

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Então pode ter certeza: você se comporta como a filhinha. Leia opiniões de especialistas O seu marido age como se fosse seu pai? Então pode ter certeza: você se comporta como a filhinha. Relacionamentos no qual o homem controla os passos da mulher e dita regras de comportamento ainda existem hoje. E não adianta querer achar culpados. Para que esses relacionamentos existam é preciso que os dois envolvidos colaborem, ainda que sem saber, na alimentação da dinâmica. “Grandes – e na verdade raras – conspirações premeditadas à parte, o caso mais comum é de mútua escolha progressiva, ou seja, de um lado a função de pai vai se impondo ou se oferecendo, e de outro a demanda por ser tratada como filha vai sendo tolerada ou induzida”, diz o psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP. Os motivos que levam a essas escolhas mútuas são variados, mas além da história da formação afetiva de cada um, podem ter também traços sociais importantes. “O que acontece é que ainda há uma confusão sobre o que a mulher espera do homem. Quer que ele seja protetor, pague as contas e depois exige uma igualdade? É muito difícil ter uma relação igual com quem é 100% dependente financeiramente do outro, por exemplo”, explica o psicólogo e sexólogo Cláudio Picazio. Para ele, ainda há muito homens que procuram “mulheres à moda antiga, para quem eles são o caminho, a verdade e a luz”. Isso pode ser uma das maneiras de se criar essa dinâmica, já que ela pode sim ser provocada por um dos parceiros. Mas é apenas uma delas. Mulheres-viagra Para Dunker, a influência dos arranjos contemporâneos vai além da confusão do provedor. “As formas de paternidade não se renovaram com a mesma intensidade e amplitude que as formas de ser filha. Neste caso, há cada vez mais ‘re-opções’, em geral por mulheres mais jovens”, diz. E, sim, trocar uma de 50 por duas de 25 é uma tentativa de os fazerem se sentir mais homens. “Aqui surge uma tendência a recuperar aspectos da masculinidade imaginária por meio desta diferença. Neste caso, as ‘segundas esposas’ podem vir a ocupar um lugar mais infantilizado. O problema é que estas ‘filhas substitutas’, que têm uma função de semelhante à de um Viagra para a paternidade combalida, também crescem”. Isso não afeta apenas a eles. “A cultura tem favorecido este funcionamento. O fenômeno da adolescência estendida tem produzido muitas mulheres voltadas para a posição de filhas”. E no que diz respeito ao papel feminino dessa dinâmica, o psicanalista questiona: “O que se destaca pouco na função da filha quando se levanta esse problema é que ser filha não é só ser obediente. Ser filha é cada vez mais a única posição de onde se pode indagar do que é feito o desejo de um homem sem ser devastada por ele. É uma espécie de recuo protegido antes de enfrentar a difícil tarefa de se tornar mulher, e também a chance, ainda que provisória, de redescobrir a sexualidade mais uma vez. Ser filha é ainda, uma forma de tentar detectar e tentar responder uma pergunta quase falida nos nosso tempos: o que é ser pai?” Quando o cuidado é demais Falar de certo e errado em relacionamentos fora dos consultórios de profissionais é perigoso – corre-se o risco de apenas meter a colher. “Não vamos cair também na ditadura de que os dois têm que ser obrigatoriamente independentes. Se ele está feliz sendo o paizão e ela sendo a filhinha, está ótimo”, acredita Picazio. Mas não é sempre assim. Primeiro porque, de acordo com ele, nem sempre os parceiros se dão conta do que está acontecendo. Segundo, porque alguém pode acordar e mudar de ideia no meio do caminho. Como saber se o cuidado que se recebe, ou dá, é exagerado? “Um critério simples é prestar atenção ao que diz aquela que está sendo cuidada. Se ela se sente controlada, asfixiada ou tendo sua autonomia restringida, é o momento de considerar excesso. Um segundo critério é examinar se a máxima que está orientando as relações de cuidado não é uma variante de ‘eu sei o que é melhor para você, melhor que você mesma’”, orienta Dunker. Ao longo de seu casamento que já dura quase treze anos, a estudante de enfermagem Fabrícia Lima, 31, experimentou boa parte das facetas descritas pelos profissionais. Ela demorou mais de dez anos para realizar seu sonho de estudar, adiado porque não tinha a aprovação do marido – que, aliás, ainda não tem. Antes de se casar, era independente a ponto de se mudar para a Bolívia, onde pretendia fazer faculdade de Medicina. Acabou voltando para o Brasil e, aos 19 anos, conheceu seu futuro marido, com quem se casou dois meses depois. Hoje, eles têm duas filhas e atritos cotidianos, porque Fabrícia não quer ser a terceira. Mas é ela mesma quem, antes de tudo, deixa clara sua parte no acordo que agora quer desfazer: “A culpa foi minha por ter deixado”, acredita. “Perdi meu pai com onze anos, uma perda que sinto até hoje. Acho que por isso deixei, sinto falta de uma presença masculina. Na verdade eu gosto, gosto de ver que tenho uma pessoa do meu lado, me sinto protegida”. Em troca disso, ela permitiu o desenvolvimento de um relacionamento em que era ele até quem a vestia com o traje apropriado na hora de andarem de moto. Para exemplificar o quanto a relação entre os dois se assemelha à de um pai com uma filha (pequena), a mulher de 31 anos conta que, quando os dois vão ao supermercado, ela não pode se afastar do carrinho. “Porque ele acha que eu vou me perder”. Só que, mesmo dentro da relação, ela cresceu. “Tive que virar filha rebelde”. Fabrícia conta que, depois dos 30 anos, começou a se sentir mais madura, “infelizmente, porque às vezes você sofre menos quando é imatura”. Com a maturidade, veio o desejo de andar com as próprias pernas. “Sabe quando você precisa ter você mesma? Eu não tenho a mim mesma”, confessa. Ela diz que, por ter feito dele toda sua vida, acabou ficando muito possessiva. E teve medo.“Você começa a enxergar tanta coisa, mulheres que ficam sem marido e não têm como sobreviver depois”. Para ela, sua maior batalha vencida na vida foi o curso de enfermagem. Como ela não trabalhava e ele era contra, Fabrícia recorreu a familiares para pagar as mensalidades. “Hoje eu me sinto muito feliz, e tento passar isso para ele. Mas ele não quer”, lamenta. Tem cura A boa notícia para Fabrícia, seu marido e quem mais estiver se sentindo sufocado ou sufocante é que tudo se resolve. “Não apenas é possível desfazer esta dinâmica, como muitas vezes esta tem sido a graça de muitos casais”, diz Dunker. Isso pode se acontecer naturalmente com certas mudanças como a chegada de filhos, um novo comportamento de um dos parceiros ou até através da ajuda de profissionais, quando a questão é incômoda. E sobrar um restinho do velho hábito pode não ser um grande problema. “Há resíduos desta montagem que permanecem restritos à vida erótica dos casais. Mas imaginar que a cama é uma boa metáfora da vida social nem sempre é o melhor caminho para lidar com a infantilização real”, diz Dunker. Fonte:IG

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